Colégios privados GPS: uma
história exemplar
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5 de dezembro de 2012
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A história que aqui vos conto, e que muitos dos leitores terão tido a oportunidade de ver na TVI (http://www.tvi.iol.pt/videos/
Nas escolas públicas Raul
Proença e Rafael Bordalo Pinheiro, nas Caldas da Rainha, há
lugares vagos. Mas construíram-se dois colégios privados, do
influente grupo GPS: Frei Cristóvão e Rainha Dona Leonor.
Concorrência? Nem por isso. Os colégios recebem alunos que são
integralmente pagos pelo Estado. Porque as escolas públicas do concelho
estão sobrelotadas? Não. Porque não têm condições? Pelo contrário. As públicas
pedem mais turmas e isso é-lhes recusado. As privadas crescem e recebem, por
decisão da DREL, muito mais turmas do que as escolas do Estado. Os alunos são
desviados do público para o privado. E o Estado paga.
No últimos cinco anos a escola
pública, nas Caldas da Rainha, perdeu 519 alunos. Os colégios com contratos de associação
(financiados pelos dinheiros públicos) ganharam 514. Não por escolha dos
pais, mas por escolha do Ministério da Educação. A Bordalo Pinheiro, que tem
condições invejáveis, resultado de um investimento de 10 milhões de euros,
poderia ter 45 turmas. Tem 39. Os alunos em falta vão para escolas privadas,
pagos por nós, com piores condições.
Enquanto nas escolas públicas
vizinhas há professores com horário zero, os professores dos colégios do grupo
GPS são intimidados para assinar declarações que os obrigam a cargas horárias
ilegais. Dão aulas a 300 ou 400 alunos. Há professores com todos os
alunos do segundo ciclo na sua disciplina. Tudo com o devido conhecimento da
Associação de Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo (AEEP).
Para além das aulas, há, casos de
professores a servirem almoços e cafés, a pintarem as instalações, a fazerem
limpezas, arrumações e trabalho de secretaria e contabilidade. Isto nas várias
escolas do grupo GPS, espalhadas pelo País. As inspeções do ministério a estas
escolas, testemunha um professor, têm aviso prévio. Isto, enquanto, só
no concelho das Caldas da Rainha, 140 professores das escolas do Estado
chegaram a estar sem horário por falta de alunos.
As condições das escolas do grupo
privado pago quase integralmente com dinheiros do Estado deixam muito a
desejar. Portas de emergência fechadas a
cadeado, falta permanente de material indispensável, cursos financiadas PRODEP
sem as instalações para o efeito e aulas a temperaturas negativas.
Falta de dinheiro? Não parece. Manuel
António Madama, diretor da Escola de São Mamede, também do grupo, é
proprietário de uma invejável frota de 80 carros. Só este ano, o grupo
GPS recebeu do Estado 25 milhões de euros. Cada turma das várias escolas do
grupo recebe do Estado 85 mil euros. Dos 3 milhões de euros vindos dos
cofres públicos para, por exemplo, a escola de Santo André, só 1,3 milhão é que
foram para pagar professores. A quando das manifestações contra a redução dos
contratos de associação, decidida por José Sócrates e que Nuno Crato anulou
(enquanto fazia cortes brutais na escola pública), a presidente da Associação
de Pais quis saber para onde ia o dinheiro que sobrava. Ficou na ignorância.
A pressão para dar negativa a alunos
que poderiam ter positiva mas, não sendo excelentes, poderiam baixar a média
nos exames que contam para o ranking, são enormes. Até ao despedimento de
professores e à alteração administrativa das notas. Os maus alunos, mesmo em
escolas privadas pagas com dinheiros públicos, são para ir para as escolas do
Estado. No agrupamento de Escolas Raul Proença há cem alunos com
necessidades educativas especiais. No colégio vizinho da GPS, o Dona Leonor,
com contrato de associação, quantos alunos destes, pagos pelo Estado, existem?
Nenhum. Dão demasiado trabalho, exigem investimento e baixam a escola
no ranking.
Como se explica o absurdo duplicar
custos quando as escolas do Estado chegam e sobram para os alunos disponíveis? De ter escolas do Estado em excelentes condições,
onde foi feito um enorme investimento, semivazias e com professores com horário
zero, enquanto nestas escolas privadas se amontoam alunos pagos pelos
contribuintes, sem condições e com os professores a serem explorados? A TVI
contou, numa inatacável reportagem de Ana Leal, documentada até ao último
pormenor e com inúmeros testemunhos, a razão deste mistério.
A GPS é um poderoso
grupo. 26 escolas de norte a sul do País, invariavelmente ao lado
de escolas públicas e com contratos de associação com o Estado. Em 10 anos
criou mais de 50 empresas em várias áreas, do turismo às telecomunicações, do
ensino ao imobiliário. António Calvete, presidente do grupo GPS,
foi deputado do PS no tempo de Guterres e membro da Comissão
parlamentar de Educação. Para o acompanhar nesta aventura empresarial chamou
antigos ministros, deputados, diretores regionais de educação. Do PS e do
PSD: Domingos Fernandes, secretário de Estado da Administração
Educativa de António Guterres, Paulo Pereira Coelho,
secretário de Estado da Administração Interna de Santana Lopes e
secretário de Estado da Administração Local de Durão Barroso, José
Junqueiro, deputado do PS. Todos foram consultores do grupo GPS.
Mas entre os políticos recrutados
pela GPS estão as duas principais figuras desta história: José Manuel
Canavarro, secretário de Estado da Administração Educativa de Santana Lopes, e
José Almeida, diretor Regional de Educação de Lisboa do mesmo governo. Foram
eles que, em 2005, assinaram o despacho que licenciava a construção de
quatro escolas do grupo GPS com contratos de associação para receberem
alunos do Estado com financiamento público. Ainda não tinham instalações e já
tinham garantido o financiamento público dos contratos de associação. Ou seja,
havia contratos de associação com escolas que ainda não tinham existência
legal. Um despacho assinado por um governo de gestão, a cinco dias das
eleições que ditariam o fim político de Santana Lopes. Depois de
saírem dos cargos públicos foram trabalhar, como consultores, para a
GPS. E nem um despacho do novo secretário de Estado, Waler Lemos, a propor
a não celebração de contratos de associação com aquelas escolas conseguiu
travar o processo.
Alguns estudos recentes falam dos
custos por aluno para o Estado das escolas públicas e privadas. Esta reportagem
explica muitas coisas que os números escondem. Como se subaproveita as
capacidades da rede escolar do Estado e se selecionam estudantes, aumentando
assim os custos por aluno, para desviar dinheiro do Estado para negócios
privados. E como esses negócios se fazem. Quem ganha com eles e quem
os ajuda a fazer. Como se desperdiça dinheiro público e se mexem influências.
A reportagem da TVI não poderia ter
sido mais oportuna. Quando vier de novo a lenga-lenga da "liberdade
de escolha", das vantagens das parcerias com os privados,
dos co-pagamentos, da insustentabilidade de continuar a
garantir a Escola Pública, do parque escolar público ser
de luxo... vale a pena rever este trabalho jornalístico. Está lá tudo. O resumo
de um poder político que serve os interesses privados e depois nos
vende a indispensável "refundação do Estado".
in http://expresso.sapo.pt/colegios-privados-gps-uma-historia-exemplar=f771463
in http://expresso.sapo.pt/colegios-privados-gps-uma-historia-exemplar=f771463
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